'É
O TERMÔMETRO, ESTÚPIDO!'
Clóvis
Panzarini
O marqueteiro
político americano James Carville, na corrida
presidencial à Casa Branca em 1992, indagado
sobre qual seria o trunfo de Bill Clinton para vencer
a eleição, proferiu a famosa frase:
'É a economia, estúpido!' A recente
e bem-feita revisão metodológica da
estimativa das contas nacionais, levada a efeito
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), indica que o Produto Interno Bruto (PIB)
brasileiro é 11% maior do que apontava a
estimativa anterior. Sendo o PIB o valor da produção
de bens e serviços de uso final colocados
à disposição da sociedade para
consumo ou investimento, constitui-se em variável
relevante para a análise econômica.
Além de permitir, quando há homogeneidade
metodológica, comparações intertemporais
e interespaciais, o PIB é referencial de
cálculo de importantes indicadores econômicos
como carga tributária, taxa de investimento,
taxa de poupança, superávit primário,
relação dívida-PIB, etc. Afora
os aspectos distributivos, o PIB per capita é
usado também como medida ex post do bem-estar
da sociedade, pois sua magnitude é idêntica
à da renda interna bruta per capita. Ele
é, pois, o 'termômetro' da economia,
a 'régua' do bem-estar social.
O governo está
festejando o novo resultado, pois descobriu que
somos 11% mais felizes do que apontara o cálculo
anterior. No calor da celebração da
'nova' economia brasileira, um ministro anunciou
o início da era do crescimento sustentado,
enquanto outro sugeriu que devemos desfrutar o novo
'Pibão', assim mesmo, no aumentativo.
Os novos cálculos
mostram aumento de quase 0,6 ponto porcentual na
taxa média anual de crescimento no período
Lula, mas quase metade dele se deve à incorporação
da Cofins ao preço dos bens e serviços.
O PIB, quando calculado a preços de mercado,
deve incluir o valor dos impostos indiretos, que
incidem sobre os produtos, e excluir os subsídios.
Entretanto, a Cofins, que por não ser formalmente
imposto indireto, mas sim uma contribuição
social, na metodologia anterior não era incluída
no PIB, e agora passou a sê-lo, o que turbinou
o seu valor.
Como no governo atual
a arrecadação da Cofins aumentou escandalosamente
por causa da elevação da alíquota
cumulativa de 3% para a não-cumulativa de
7,6%, a sua incorporação no valor
do PIB impactou mais fortemente os anos mais recentes.
A nova contabilização dos tributos
explica, portanto, grande parte do aumento do PIB.
Caso fosse nele incluída também a
arrecadação do PIS e da CPMF, que
formalmente são contribuições,
mas conceitualmente podem ser considerados impostos
indiretos, chegaríamos a um 'Pibão'
ainda maior. Também modificações
metodológicas no consumo do governo empurraram
para cima o valor do PIB.
Os novos dados mostram
que o consumo das famílias aumentou de 60,9%
para 63% do PIB, o que é explicado pelo aumento
real do salário mínimo, pela oferta
abundante de crédito ao consumidor e também
pela política de transferência de renda
do governo, pois quando se retira, por meio dos
impostos, dinheiro da sociedade como um todo - que
poupa parte da renda - e se distribui a pessoas
extremamente pobres, que consomem a sua totalidade,
necessariamente a poupança total diminui
e o consumo aumenta.
Como os investimentos
não aumentaram, os novos números mostram
que a taxa de investimento (relação
investimento-PIB) caiu de 20,6% para 16,8%, o que
evidencia aumento da produtividade do capital. Porém,
sendo verdadeira a assertiva, aceita pela maioria
dos economistas, de que a taxa de investimento deve
crescer cinco pontos porcentuais do PIB para que
as metas do Programa de Aceleração
do Crescimento (PAC) sejam alcançadas, agora,
em termos absolutos, essa carência é
11% maior. De outro lado, a carga tributária
(relação arrecadação-PIB)
foi reduzida de 38,4% para 34,2% e já houve
sugestão de que essa 'redução'
da carga abre espaço para mais aumento de
impostos!
A verdade é
que os novos números, apesar de melhores
do que os anteriores, não desmentem o fato
de que a economia brasileira continua claudicando.
Usando jargão futebolístico, tão
em moda nos dias que correm, podemos dizer que não
somos mais o 'vice-lanterna' do crescimento econômico
na América Latina: deixamos agora para trás,
além do Haiti, o Paraguai e El Salvador,
mas continuamos na 'zona de rebaixamento' e, segundo
a Organização para Cooperação
e Desenvolvimento Econômico (OCDE), continuamos
na 'lanterna' entre os países emergentes,
com crescimento médio anual de 2,9% nos últimos
15 anos. Também é verdade que esse
novo PIB, inchado em boa parte pela obesidade do
governo, não traz um centavo adicional para
o bolso dos brasileiros, assim como não alivia
em nada o insuportável peso dos impostos.
A febre continua a mesma. O que mudou foi o termômetro.
(*) economista , ex-coordenador tributário da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo e sócio-diretor da CP Consultores Associados Ltda (clovis@cpconsultores. com .br)