INFERNO
TRIBUTÁRIO
Clóvis
Panzarini
O Brasil não
é apenas, entre os países emergentes,
o campeão de carga tributária. É
também imbatível no campeonato mundial
de complexidade do sistema tributário.
Recente estudo publicado pela Price
Waterhouse & Coopers (PWC) e pelo Banco Mundial
(Paying Taxes 2008 - The Global Picture) faz interessante
análise dos sistemas tributários de
quase todos os países do planeta e evidencia
que o sistema tributário brasileiro é
o mais complicado do mundo.
Um dos indicadores considerados
para a aferição da complexidade dos
sistemas - o tempo médio despendido pelo
contribuinte para o cumprimento de suas obrigações
fiscais - põe o Brasil na 177ª posição
entre os 177 países pesquisados! As empresas
brasileiras gastam, em média, segundo o estudo,
2.600 horas/homem/ano para cumprir todas as suas
obrigações fiscais. A Turquia é
outro país em que se gastam mais de 2 mil
horas nessa atividade. Os turcos perdem 2.085 horas.
No terceiro pior país da lista, Camarões,
se gastam 1.400 horas. Além desses países,
apenas em Belarus, Armênia, Nigéria,
Bolívia e Vietnã se levam mais de
mil horas por ano para pagar impostos. O estudo
mostra que na Índia, por exemplo, são
gastas, em média, apenas 271 horas/homem/ano
- pouco mais de um décimo do tempo exigido
no Brasil - para o cumprimento das obrigações
fiscais, o que a coloca no mesmo patamar da média
de horas exigidas nos países do grupo G-8
(254 horas) e da União Européia (257
horas).
Metade das horas despendidas para
o cumprimento das obrigações fiscais
no Brasil, aponta o estudo, é demandada pelo
Imposto sobre Circulação de Mercadorias
e Prestação de Serviços (ICMS),
esse imposto estadual que tem sido o principal indutor
dos debates sobre a cada vez mais distante reforma
tributária.
A qualidade dos impostos no Brasil
ofende mais a competitividade da economia do que
a própria magnitude da carga tributária,
que é equivocadamente entendida por muitos
como a principal razão para uma reforma.
Além de extremamente complexos
- como evidenciou o estudo da PWC -, os tributos
no Brasil são injustos, ineficientes e pouco
transparentes (sendo o menos transparente deles
a agonizante CPMF que, escondida no preço
das mercadorias, tungava R$ 40 bilhões por
ano do orçamento familiar).
A complexidade do sistema faz com
que os custos da “compliance” sejam,
muitas vezes, mais gravosos do que o próprio
valor do imposto recolhido. Acrescente-se a isso
as demais distorções - como as decorrentes
da guerra fiscal, que gera insegurança jurídica
e violência contra a competição,
e da cumulatividade, que existindo mesmo nos insuspeitos
tributos “não-cumulativos”, como
o ICMS, erode a competitividade das empresas brasileiras
- e temos um panorama tétrico do nosso sistema.
Empresários, contribuintes
e a população em geral clamam pela
reforma tributária, pois todos sofrem com
os absurdos do sistema, mas poucos têm perfeita
noção dos contornos políticos
que devem ser observados e dos aspectos técnicos
que devem orientar um novo modelo, mais racional
e eficiente. Destarte, as sucessivas propostas de
reforma tributária não saem do papel
porque, agredindo o pacto federativo, são
politicamente inviáveis ou porque são
tecnicamente frágeis e acentuam ainda mais
as distorções que pretendem mitigar.
A inserção na Constituição
de 1988 do comando que prevê a sua revisão
após cinco anos da data da promulgação,
por voto de maioria absoluta dos membros do Congresso
Nacional - menor do que o necessário para
aprovação de Emenda Constitucional,
que exige três quintos daqueles votos -, teve
por motivação básica as incertezas
da eficácia do sistema tributário
que então se aprovava.
Assim, desde 1993 o sistema tributário
vem sendo alvo de assédio dos reformadores.
Remédios de toda espécie têm
sido oferecidos para a cura do nosso doente modelo,
quase todos anunciados como panacéia, sendo
muitos deles verdadeiras “garrafadas”,
daquelas que prometem curar desde complexidade até
injustiça distributiva. Até a substituição
de todos os tributos por uma “super CPMF”,
com alíquota de 7% ou 8% (teria de gerar
20 vezes mais receita do que a CPMF, que rendia
R$ 40 bilhões/ano com a alíquota de
0,38%), tem sido defendida por ingênuos contribuintes
ou economistas de insuspeita estatura intelectual.
Todas as propostas de reforma tributária
têm dirigido o foco na revisão do ICMS,
o que vem ao encontro do resultado da pesquisa da
PWC, que aponta o ICMS como responsável por
mais de metade das horas consumidas para o cumprimento
das obrigações fiscais.
A última proposta de reforma
tributária, ainda não formalizada,
gestada pelo governo federal e coordenada pelo secretário
Bernard Appy, do Ministério da Fazenda, prevê
a substituição de todos os tributos
indiretos por dois Impostos Sobre Valor Agregado
(IVAs) - um federal e outro estadual - incidentes
sobre a mesma base e com a adoção
de princípios mais modernos de tributação.
Dentre as mudanças propostas se destacam
a incorporação de todos os serviços,
inclusive aqueles hoje submetidos ao Imposto Sobre
Serviços (ISS), que desapareceria, e a adoção
do princípio de destino para o IVA estadual,
o atual ICMS, que responde por mais de 20% da carga
total e é um dos principais responsáveis
pela confusão tributária.
Essa proposta, que traria alguma
racionalidade ao sistema, parece já estar
politicamente inviabilizada, pois os prefeitos municipais
não querem perder o ISS e os Estados perdedores
de receita com o novo modelo, por razões
óbvias, se posicionam contrários às
mudanças. Porém não é
só a qualidade e a magnitude dos tributos
que representam problema no Brasil. O Fisco de todas
as esferas de governo quase sempre considera - e
trata - todo contribuinte como potencial sonegador,
o que torna o calvário a ser percorrido para
o cumprimento das obrigações tributárias
cada vez mais insano. Só quem é contribuinte
sabe quão dolorosa é a dependência
de carimbos e vistos, cuja ausência paralisa
linhas de produção, bloqueia transporte
e armazenagem e desemprega trabalhadores. Mas não
há reforma tributária que resolva
isso; só uma reforma de mentalidades. Tanto
do mau contribuinte quanto do diligente Fisco.
(*) economista , ex-coordenador
tributário da Secretaria da Fazenda do Estado
de São Paulo e sócio-diretor da CP
Consultores Associados Ltda (clovis@cpconsultores.
com .br)