PACOTE
SÃO SILVESTRE
Clóvis
Panzarini
“Nunca antes
neste país” o debate tributário
foi envolvido por clima tão passional. Quando
tentava aprovar a prorrogação da CPMF,
o governo federal agredia o bom senso e a racionalidade
fazendo prognósticos catastrofistas caso
aquela fonte de receita não fosse mantida.
Autoridades fazendárias alardeavam que, sem
os R$ 40 bilhões anuais do imposto do cheque,
o País ficaria ingovernável, com conseqüências
imprevisíveis, especialmente na área
da saúde. O presidente da República,
abandonando a liturgia do cargo, chamava de sonegador
todo aquele que se manifestasse contra a prorrogação
daquela malfadada, cumulativa e injusta contribuição.
Os contribuintes, que não
agüentam mais tanto imposto, faziam pressão
e a oposição, mais preocupada em subtrair
do governo Lula R$ 120 bilhões nos próximos
três anos do que em somar essa vultosa importância
à renda disponível da população,
atendeu à “voz rouca das ruas”
e, aliando-se a alguns descontentes ou não
devidamente “convencidos” da base aliada,
derrubou a prorrogação da CPMF.
A felicidade da população
com o gordo presente de Natal - R$ 40 bilhões
adicionais na sua renda disponível, com aval
presidencial de que isso era para valer - foi tão
fugaz quanto o borbulhar do champanhe do réveillon.
Como não se perdem passivamente R$ 40 bilhões,
o governo, no primeiro momento, anunciou a retomada
da discussão da reforma tributária,
no que foi ingenuamente aplaudido por todos aqueles
que ainda acalentam o sonho de redução
da carga e do caos tributário.
Como acabara de amargar dolorosa
perda de receita, não pretendia, naturalmente,
retomar a reforma tributária para reduzir
a carga de impostos! É de lembrar que reforma
tributária tem sido a senha para prorrogar
a CPMF. Foi assim em 2003 e 2007, e nesta última
vez não deu certo. Fica difícil entender
essa pressa para fazer tal reforma, se a concepção,
a aprovação e a implantação
de um novo desenho tributário, por mais consenso
que se tenha - atualmente não se tem nenhum
-, não leva menos de três anos. A não
ser que se pretendesse aprovar apenas aquele “esperto”
artigo do Ato das Disposições Constitucionais
Transitórias que restabeleceria o imposto
do cheque, ficando o resto para as calendas.
Aparentemente descartado ou
adiado esse estratagema, o governo, com um buraco
de R$ 40 bilhões no orçamento, decidiu
adotar medidas menos dependentes do apoio parlamentar.
Com uma canetada, presenteou a sociedade com um
pacote de ano-novo, recuperando R$ 10 bilhões
- um quarto da perda da CPMF, duplicando as alíquotas
do Imposto sobre Operações Financeiras
(IOF) - que, por ser regulatório, não
depende de aprovação do Parlamento
- e aumentando de 9% para 15% a alíquota
da Contribuição Social sobre o Lucro
Líquido (CSLL) das instituições
financeiras. A arrecadação do IOF,
cuja previsão era de R$ 8 bilhões
neste ano, com as alíquotas turbinadas deverá
atingir R$ 16 bilhões. Outros R$ 2 bilhões
serão recuperados com o aumento da alíquota
da CSLL.
Houve generalizada indignação
com a inesperada medida, que confiscou um quarto
do presente tributário de Natal. Os políticos
da oposição vibraram com mais uma
bandeira contra o governo, verdadeiro mimo. Além
disso, a maioria das análises técnicas
dessa recarga tributária peca pela falta
de racionalidade. Economistas e tributaristas vociferam
contra o “aumento” da carga tributária
em 2008, prevendo conseqüências desastrosas
para a economia. É difícil entender
como a carga tributária aumenta, substituindo-se
um tributo que pesava R$ 40 bilhões por aumentos
que pesam R$ 10 bilhões...
Em relação ao
ano passado houve, de fato, redução
de peso tributário da ordem de R$ 30 bilhões.
É claro que em relação ao discurso
“ojeriza a pacotes” do presidente Lula
houve aumento de R$ 10 bilhões! Mas quem,
bem informado, ainda acredita nas palavras do governo?
A verdade é
que, pelo menos por ora, a economia brasileira está
livre de um tributo de péssima qualidade,
cuja ofensa à competitividade do setor produtivo
era significativamente maior do que a decorrente
do pacotinho de ano-novo, que tem, ainda, o efeito
colateral de jogar um pouco de água fria
na fervura da demanda financiada com renda futura,
que ameaça perigosamente a estabilidade dos
preços.
(*) economista , ex-coordenador
tributário da Secretaria da Fazenda do Estado
de São Paulo e sócio-diretor da CP
Consultores Associados Ltda (clovis@cpconsultores.
com .br)