CAOS
TRIBUTÁRIO
Clóvis
Panzarini
O
sistema tributário brasileiro vem sendo persistentemente
deteriorado pela política tributária
dos três níveis de governo, que, pressionados
pela rigidez orçamentária, têm
privilegiado a produtividade dos tributos em detrimento
dos princípios clássicos que devem
norteá-los - como os da equidade e da neutralidade,
fundamentais para a competitividade da economia
e, assim, para a manutenção da taxa
de crescimento necessária à criação
de empregos e à inclusão social efetiva,
liberta de verbas públicas.
Os
entes federativos, constrangidos, de um lado, pela
expansão de custeio decorrente das crescentes
demandas da sociedade e, de outro, pela necessidade
de disciplina fiscal, buscam aumentar a arrecadação
a qualquer custo, desconsiderando conceitos que
devem orientar a eficiência do sistema e transformando
o arcabouço jurídico-tributário
em verdadeiro enigma, indecifrável algumas
vezes até por agentes do Fisco, que amiúde
se contradizem na interpretação das
regras por eles elaboradas.
O
cipoal de normas, a multiplicidade de incidências
sobre um mesmo fato gerador e a magnitude da carga
tributária explicam a inadimplência,
a elisão, a sonegação e as
contingências fiscais que induzem truculência
na elaboração das regras desenhadas
para reprimi-las, num processo que se retroalimenta.
A busca pelo Fisco de comodidade tributária
para aumentar a arrecadação, tão
comum nos dias que correm, resulta quase sempre
em agressão ao princípio da neutralidade.
Exemplo
eloquente desse apego ao conforto arrecadatório
é a concentração da responsabilidade
pelo recolhimento de impostos do tipo valor agregado
em determinado elo da cadeia, por meio da substituição
tributária "para a frente" ou "para
trás", desvirtuando a lógica
do imposto, quebrando a cadeia de débito/crédito
- o que resulta em cumulatividade - e impondo ônus
tributário sobre margens setoriais médias
(portanto, teóricas para cada contribuinte),
igualando os desiguais e desprezando o preço
efetivamente praticado, que deveria ser a verdadeira
base de cálculo da exigência tributária.
Se
a facilidade de coleta é, como parece, o
único objetivo do governo, melhor seria a
adoção do Imposto Único sobre
Transações Financeiras, extremamente
mais simples para o contribuinte e não mais
danoso para a economia do que os mostrengos "IVAs
monofásicos".
De
outro lado, a guerra fiscal entre Estados, além
de ofender todos os princípios que devem
ser observados pelo sistema tributário, gera
sufocante insegurança jurídica, tanto
para os investidores agraciados com benefícios
fiscais ilegais quanto para seus clientes localizados
em outras unidades federadas.
O
fato é que a relação Fisco-contribuinte
nunca foi tão conflituosa e esse ambiente
conturbado tem levado a sociedade a clamar por reforma
desse sistema tributário caótico,
que está erodindo a competitividade do setor
produtivo tanto no mercado internacional quanto
no doméstico, amplificando os efeitos perversos
da apreciação do real sobre a balança
comercial.
O
presidente Lula, em março de 2003, alardeou
que fizera em três meses a reforma tributária
que o governo anterior não conseguira em
oito anos. Referia-se à Proposta de Emenda
Constitucional (PEC) nº 41/03, que encaminhava
ao Congresso e que, sendo originariamente ruim,
foi piorando ao longo dos debates e negociações.
O que restou daquela PEC foi meramente a prorrogação
da nada saudosa CPMF.
Ao
longo dos últimos sete anos o governo federal
intentou outras propostas de reforma tributária,
como a PEC 285/2004 e a PEC 233/2008, que não
evoluíram. É de perguntar, então,
por que, sendo praticamente consensual o entendimento
de que o sistema tributário é tão
deletério para a competitividade da economia,
a sua reforma, tão ansiosamente aguardada,
não prospera. O fato é que os entes
federativos não querem correr o risco de
perder receita e, também, que algumas das
distorções do modelo atual, como a
guerra fiscal, fazem a alegria de muitos.
Como
o calendário eleitoral praticamente inviabiliza
a discussão de tema tão polêmico
em 2010, o horizonte muito otimista para a aprovação
de mudanças tributárias é 2011.
Destarte, é importante que cada postulante
ao Planalto reserve em sua plataforma de governo
espaço para o debate da reforma tributária,
a fim de que a proposta esteja madura para ser votada
nos primeiros meses do próximo período
de governo, pois o passar do tempo joga contra ela.
(*) economista , ex-coordenador
tributário da Secretaria da Fazenda do Estado
de São Paulo e sócio-diretor da CP
Consultores Associados Ltda (clovis@cpconsultores.
com .br)