CARGA
TRIBUTÁRIA E EQUILÍBRIO FISCAL
Clóvis
Panzarini
A
arrecadação tributária da União
alcançou em abril a assustadora cifra de
R$ 70,9 bilhões, recorde para o mês,
tendo crescido 16,75%, em termos reais, em relação
à de abril do ano passado. De acordo com
a Receita Federal, esse é o quarto mês
consecutivo de recorde da arrecadação
ante o mesmo mês do ano anterior. No quadrimestre,
os tentáculos tributários federais
já sugaram do setor privado mais de um quarto
de trilhão de reais (R$ 256,9 bilhões),
o que significou crescimento real de 12,52% em relação
ao mesmo período do ano passado.
Caso essa impressionante trajetória se mantenha
até o fim do ano e seja, também, trilhada
por governos estaduais e municipais, podemos esperar
um crescimento da carga tributária (relação
arrecadação tributária/Produto
Interno Bruto) superior a 5 pontos porcentuais,
admitindo-se que o denominador dessa razão,
o PIB, cresça 6% em 2010.
A sabedoria convencional ensina que, com tamanha
fartura de recursos nas mãos do governo,
a sociedade deve festejar, esperando melhoria na
qualidade dos serviços públicos, ou
mais investimentos na deteriorada infraestrutura,
que tanto compromete a competitividade da economia,
ou aumento no superávit primário para
que a já oceânica dívida pública
bruta, que já supera R$ 1,5 trilhão,
ou 65% do PIB, não aumente mais: o superávit
primário - poupança do governo - não
cobre sequer os juros incidentes, que consomem 5,3%
do PIB, 1/7 da carga tributária! Ou, quem
sabe, esperar um alívio nas alíquotas
dos impostos, de vez que elas estão gerando
mais recursos do que o governo espera, revelando-se,
evidentemente, mal calibradas!
Porém, o cidadão-contribuinte não
deve se iludir com nenhuma das alternativas, pois,
se, de um lado, a receita está "bombando",
de outro, as despesas de custeio, os desperdícios,
também estão. O governo federal, embora
tenha conduzido com responsabilidade a política
fiscal nos primeiros anos de governo do PT, aumentou
extraordinariamente as despesas de custeio a partir
da crise global. Para atenuar a queda da demanda
- temporária -, fez política anticíclica
expandindo despesas permanentes, como o aumento
da folha de pessoal e despesas previdenciárias.
O superávit primário em 2009 caiu
perigosamente para 2,05% do PIB, o que representou
apenas 38% dos 5,3% do PIB, necessários para
pagar os juros da dívida. A diferença,
evidentemente, transformou-se em dívida nova.
Em 2010, no fluxo de 12 meses que terminou em março,
o superávit primário foi de apenas
1,94 do PIB.
O fato é que, ao invés de fazer política
expansionista, aumentando despesas temporárias
- os investimentos - como bom senso ensina, o governo
expandiu despesas permanentes. A crise passou e
as despesas de custeio ficaram. Agora, o governo
federal, assustado com a demanda interna que aquece
a economia mas também os índices de
inflação, anuncia corte de R$ 10 bilhões
nas despesas de custeio.
Do ponto de vista macroeconômico, esse corte
tem pouco significado: pouco mais de 1% da despesa
total anual. Mas é de se prever que os efeitos
desse corte de despesas, em ano eleitoral, serão
imperceptíveis para a sociedade, vale dizer,
para os eleitores. Admitindo-se como verdadeira
essa assertiva - e é difícil admitir
o contrário -, o seu corolário é
que as despesas também eram imperceptíveis
para a sociedade. Em outras palavras, o governo
federal está confessando que vai cortar R$
10 bilhões de desperdícios de dinheiro
público. E tem muito mais para cortar!
(*) economista , ex-coordenador
tributário da Secretaria da Fazenda do Estado
de São Paulo e sócio-diretor da CP
Consultores Associados Ltda (clovis@cpconsultores.
com .br)