CARGA
TRIBUTÁRIA E BONDADES ELEITOREIRAS
Clóvis
Panzarini
Em
2002 as três esferas de governo arrecadaram
R$ 479,9 bilhões, equivalentes a 32,5% do
Produto Interno Bruto (PIB) daquele ano (R$ 1.477
bilhões). Sete anos depois, em 2009, a arrecadação
totalizou R$ 1.077,3 bilhões, ou 34,3% do
PIB (R$ 3.143 bilhões) e, no primeiro semestre
deste ano, o governo federal arrecadou 11,2% a mais
do que no mesmo período do ano passado, descontada
a inflação. Admitindo-se que essa
performance seja mantida até o final do ano
e, também, que a arrecadação
dos Estados e municípios apresente desempenho
semelhante, pode-se projetar para 2010 uma carga
tributária equivalente a 35,6% do PIB, considerando
que este cresça 7%.
Dessa
estratosférica carga, entretanto, não
sobrarão recursos para pagar sequer a totalidade
dos juros nominais da dívida pública!
O fato é que as armadilhas orçamentárias
em que o setor público do País se
vem enredando exigem montante de receita pública
cada vez maior. Os dados relativos à "necessidade
de financiamento do setor público",
anualizados até maio, publicados pela Secretaria
do Tesouro Nacional, revelam que os juros nominais
da dívida pública representaram despesa
equivalente a 5,42% do PIB e o déficit do
INSS, outros 1,42% do PIB. Só esses itens
de despesa devoram um quinto da carga tributária
e deverão sofrer expressivo aumento com a
elevação da taxa básica de
juros, a Selic, e concessão de aumento dos
proventos dos aposentados em porcentual superior
à inflação.
O
governo vem desde abril aumentando a taxa básica
de juros, o que lhe autoimpõe necessidades
adicionais de recursos, pois é o principal
tomador de empréstimos do País. Segundo
estimativa do insuspeito economista Amir Khair,
essas elevações na Selic implicarão
para o governo federal gasto adicional com juros
da ordem de R$ 15 bilhões, em 2010, e de
R$ 48 bilhões, em 2011. Como o superávit
primário - a "poupança"
do governo para pagar o serviço da dívida
- deste ano deverá atingir, se tanto, apenas
a metade das necessidades de recursos para pagamento
dos juros nominais, a outra metade será honrada
com a emissão de novos "papagaios".
É a chamada "bola de neve" dos
encalacrados financeiramente, que ainda será
agravada com as bondades eleitoreiras - irresponsáveis
aumentos na folha salarial do setor público
e elevação dos proventos dos aposentados,
para citar alguns exemplos -, e podemos vislumbrar
demanda cada vez maior de receita pública,
vale dizer, de impostos.
A
isso se deve somar a necessidade de dezenas de bilhões
de reais para os investimentos públicos -
uns, produtivos; outros, verdadeiros "elefantes
brancos" - para a viabilização
das duas grandes festas programadas para 2014 e
2016: a Copa do Mundo e a Olimpíada. Como
é o contribuinte que paga cada centavo da
despesa pública, é claro que essas
novas contas serão espetadas no bolso dele,
com novos aumentos de imposto. O circo vai custar
um naco do pão!
E
de festa em festa a rigidez orçamentária
vai aumentando, o que poderá representar
maldita herança na forma de desajuste fiscal
para o próximo presidente da República.
Destarte, parece estéril o clamor nacional
por redução da carga tributária
que, como a taxa de condomínio, deve ser
suficiente para cobrir os gastos condominiais, sob
pena de "chamada extra" ou de colapso
no atendimento às necessidades básicas
dos condôminos. Enquanto o "síndico"
do "Condomínio Brasil" não
racionalizar o custeio da máquina pública,
eliminando extravagâncias, desperdícios,
loteamento de cargos, etc., a taxa condominial continuará
crescente. É fundamental, pois, que o contribuinte/eleitor
tenha consciência de que ele é quem
paga cada centavo das festas, desperdícios
e "bondades" promovidos pelo governo e
que promessas de redução de impostos
não rimam com aumento de gastos.
(*) economista , ex-coordenador
tributário da Secretaria da Fazenda do Estado
de São Paulo e sócio-diretor da CP
Consultores Associados Ltda (clovis@cpconsultores.
com .br)