O MAR,
O ROCHEDO E O EXPORTADOR
Clóvis
Panzarini
Reza
um dito popular que "em briga de mar contra
rochedo, os mariscos acabam apanhando". Na
disputa federativa entre a União e os Estados
por recursos orçamentários, todo ano,
quando se discute o projeto de lei do orçamento
federal, os Estados iniciam queda-de-braço
com o governo federal para que naquela peça
seja consignada dotação para transferência
a seu favor, a título de ressarcimento pelas
perdas de que são vítimas decorrentes
dos efeitos da chamada Lei Kandir (LC 87/96).
As exportações manufaturados são
desoneradas desde sempre e a partir de 1996, a tal
Lei Kandir estendeu também aos produtos primários
e semi elaborados esse benefício. Essa mesma
lei estabeleceu que até o exercício
de 2002 - depois prorrogado até 2006 - a
título de ressarcimento aos Estados que "a
União entregará (...) recursos aos
Estados (...), obedecidos os montantes, os critérios,
os prazos e as demais condições (...)".
O fato é que desde 2007 a União não
tem mais obrigação - antes, sem definição
de montante, a "obrigação"
era também negociada - de ressarcir os Estados
pelas perdas decorrentes daquela Lei. Em 2003, a
Emenda Constitucional nº 42 excluiu também
os primários e semi elaborados do campo de
incidência do ICMS e estabeleceu que "a
União entregará aos Estados e ao Distrito
Federal o montante definido em lei complementar,
de acordo com critérios, prazos e condições
nela determinados (...)."
Como essa lei complementar ainda não foi
editada, os tais repasses da União hoje são
voluntários uma vez que não há
lei que a obrigue a fazê-lo. De outro lado,
os Estados, com os interesses contrariados, assustam
a União - que tem a responsabilidade pelo
equilíbrio das contas externas - anunciando
que não vão mais devolver aos exportadores,
no caso, os mariscos, o ICMS indevidamente cobrado
nas etapas anteriores à exportação,
ainda que essa devolução - os chamados
créditos acumulados de ICMS - seja um direito
constitucional do exportador.
Observe-se que a já distante lei Kandir isentou
apenas as exportações de primários
e semi elaborados, mas os Estados ameaçam
prejudicar todas as exportações, as
de banana e as de automóvel! Nessa briga,
todos os mariscos acabam apanhando.
(*) economista , ex-coordenador
tributário da Secretaria da Fazenda do Estado
de São Paulo e sócio-diretor da CP
Consultores Associados Ltda (clovis@cpconsultores.
com .br)