ABORTOS
TRIBUTÁRIOS
Clóvis
Panzarini
Às
vésperas da eleição renovam-se
as esperanças de mudança. Governo
mais republicano, crescimento econômico com
justiça social, reformas política,
tributária e previdenciária são
chavões que figuram na agenda dos candidatos
ao Planalto, levando o cidadão-eleitor a
sonhar com o fim dos cotidianos assaltos aos cofres
públicos, segurança no emprego, melhoria
da renda familiar, serviços públicos
de melhor qualidade, menor carga de impostos, sistema
tributário mais justo e eficiente, etc. A
sonhar, enfim, com o crescimento da felicidade nacional
bruta.
Dentre as promessas de campanha, a da reforma tributária
tem ocupado pálido destaque na plataforma
dos candidatos. Nada é explicitado e se repetem
platitudes que há anos vêm sendo recitadas,
como "redução da carga tributária",
"simplificação do sistema",
"fim da guerra fiscal" e quejandos. Promete-se
reduzir a carga tributária no mesmo discurso
em que se anuncia aumento no gasto público,
como se isso fosse possível sem formidável
desarranjo nas contas do governo.
A contradição inserta nessa gauche
equação, declaração
explícita de irresponsabilidade fiscal, desanima
os analistas mais esclarecidos que não têm
como não concluir que a questão fiscal
não está sendo levada a sério.
Dentre as reformas institucionais, a tributária
é a mais ansiosamente aguardada, pois o sistema
atual está sufocando a competitividade do
setor produtivo. A carga tributária no Brasil
cresce ano após ano, acompanhando a trajetória
dos gastos públicos inúteis, dos desperdícios
e das roubalheiras. Não é por outra
razão que, apesar dos recorrentes aumentos
de arrecadação, a dívida pública
continua crescendo e exige esforço fiscal
cada vez maior para pagamento dos juros sobre ela
incidentes.
Os juros nominais da dívida pública
nos últimos oito meses equivaleram a 5,36%
do Produto Interno Bruto (PIB), tendo devorado 15,3%
de toda a carga tributária que, por sua vez,
devorou 35% do PIB do período! Nesses oito
meses, entretanto, o governo só conseguiu
poupar para pagamento dos juros - o tal superávit
primário - o equivalente a 2,07% do PIB,
ou apenas 39% do necessário. Os outros 61%
(ou 3,29% do PIB) foram honrados com dívida
nova. Comportou-se, pois, como aquele endividado
que entra no cheque especial para pagar os juros
do cartão de crédito...
A armadilha fiscal que espera o próximo presidente
não é pequena, e neste contexto parece
ingenuidade esperar algum alívio na carga
de impostos. Quanto à implantação
da reforma tributária, tratada como algo
menor, que poderá ser feita no próximo
mês de janeiro, também não dá
para ser otimista. É memorável a solene
declaração do presidente Lula em abril
de 2003, quando descia a rampa do palácio
com um projeto de reforma tributária debaixo
do braço, acompanhado dos 27 governadores:
"fiz em três meses a reforma que o governo
anterior não conseguiu fazer em oito anos",
referindo-se à Proposta de Emenda Constitucional
(PEC) n.º 41/2003. Pois é. Oito anos
depois e sucessivas PECs de reforma tributária,
nada aconteceu. Ou melhor, o sistema tributário
piorou muito!
Conflitos distributivos de toda ordem permeiam o
debate da reforma tributária, e o federativo
- cuja superação perpassa por delicado
equacionamento político - é o mais
tenso deles. Enquanto isso, o caos tributário
vem ofendendo profundamente a competitividade do
setor produtivo nacional.
Nesse festival de irracionalidades, tem posição
de relevo o ICMS, imposto estadual que representa
19% da carga tributária total e 85% da arrecadação
dos Estados. A administração desse
imposto, focada quase que exclusivamente na busca
insana de aumento de arrecadação e/ou
de novas bases tributárias, tem provocado
ineficiências de toda ordem, além da
insegurança jurídica que deixa em
pânico o contribuinte.
Tributação sobre bens de capital e
de uso e consumo; apropriação indevida,
pelos Estados, do ICMS cobrado nas operações
que antecedem as exportações; guerra
fiscal; pirataria fiscal alimentada por surrealistas
concessões de benefícios de ICMS às
importações, em verdadeiro crime de
lesa-pátria; adoção generalizada
da substituição tributária
que deturpa a sua natureza de Imposto sobre Valor
Agregado (IVA), transformando-o em exótico
"IVA monofásico", são exemplos
de abortos tributários que comprometem a
saúde da economia brasileira.
É, pois, desalentador ver que os temas religiosos
estejam tendo mais destaque do que os fiscais no
debate eleitoral.
(*) economista , ex-coordenador
tributário da Secretaria da Fazenda do Estado
de São Paulo e sócio-diretor da CP
Consultores Associados Ltda (clovis@cpconsultores.
com .br)