CPMF
E SAÚDE PÚBLICA
Clóvis
Panzarini
A
sofisticada e caríssima assistência
médica a que vem sendo submetido o ex-presidente
Lula tem suscitado debate sobre a abissal diferença
entre o atendimento público de saúde
e o privado; entre hospitais públicos e "sírio-libaneses"
da vida; e entre o doente pobre e o rico. A comparação
é inevitável. Adversários raivosos
do lulopetismo têm sugerido pela internet
que Lula passe por atendimento idêntico ao
denunciado cotidianamente em telejornais, que mostram
somalianas cenas de sofrimento humano; doentes padecendo
em macas nos corredores dos hospitais, morrendo
na fila de espera por cirurgia ou por contraírem
infecção em hospital cujo padrão
de higiene pouco difere do de uma pocilga. É
verdade que, há pouco tempo, Lula, então
presidente, em arroubo de grandeza, proclamou que
a saúde pública no Brasil se aproxima
da perfeição, mas isso não
justifica a imprecação para que ele
vá para o mesmo calvário dos pobres.
Afinal, foi apenas mais uma boutade do ex-presidente.
O
fato é que a precariedade é evidente
e o governo se justifica alegando falta de recursos.
Daí porque, sempre que essa tragédia
vem à baila, as "viúvas da CPMF"
voltam à carga e propõem sua recriação
com receita vinculada ao setor de saúde.
Esse argumento não resiste à mais
superficial análise. O problema não
é a falta de recursos. A Receita Federal
do Brasil acaba de divulgar que a carga tributária
em 2010 atingiu 33,56% do PIB. Em termos absolutos,
as três esferas de governo arrecadaram R$
1.233 bilhões, com ganho nominal de R$ 179
bilhões ante 2009. É de ressaltar
que, nesse cálculo "chapa-branca"
da carga tributária, não constam outras
exações fiscais, como a Cide-Combustíveis
e os royalties do petróleo. Feita essa necessária
correção, a arrecadação
tributária chegou, no ano passado, a R$ 1.292
bilhões, elevando a carga tributária
para 35,16% do PIB. Naquele ano, só o governo
ganhou, em termos absolutos, R$ 71 bilhões
em valor atualizado, quase duas CPMFs e, no corrente
ano (até outubro), a receita da União,
deflacionada pelo IPCA, já cresceu em relação
ao mesmo período de 2010 12,2% ou R$ 88 bilhões
a mais. Outras duas CPMFs! Assim, o atual patamar
de arrecadação da União está
quatro CPMFs acima do verificado em 2009, ou cinco
acima de 2007, último ano de vigência
da malfadada contribuição.
Parece,
pois, agressão à inteligência
das pessoas minimamente informadas a cantilena de
que sem criar nova CPMF o problema não tem
solução. O problema não é,
obviamente, falta de recursos, mas de escolha na
sua alocação. Em 2010, mesmo tendo
o governo ganho receita adicional equivalente a
duas CPMFs, alocou para o setor só 7,8% da
receita total.
Fica
difícil crer que falta dinheiro para a saúde,
quando nossa presidente vai à rica Europa
oferecer ajuda para recuperar o euro. Ou quando
existem recursos para, por exemplo, anunciar a construção
de bilionários trens-bala, de prioridade
duvidosa, ou de oferecer suspeitos financiamentos,
também bilionários, para fusão
de empresas, cuja consequência inevitável
é a destruição de empregos.
Fazer mais trens-bala e menos hospitais é
escolha política, assim como sustentar mais
ONGs fajutas e comprar menos mamógrafos.
O aparelhamento da máquina administrativa,
os demagógicos aumentos salariais e os desvios
de toda ordem fazem com que despesas correntes do
governo cresçam a taxa superior à
do PIB e da própria arrecadação.
As despesas primárias do governo (exceto
transferências constitucionais a Estados e
municípios), que em 2002 equivaleram a 15,7%
do PIB, saltaram para 19,1% no ano passado.
Não
é, pois, criando novo tributo que a saúde
vai melhorar, pois dinheiro não falta. Ademais,
os serviços do setor certamente melhorariam
caso a nova receita, carimbada para a saúde,
se somasse aos recursos livres atualmente alocados
(R$ 54 bilhões, pelo governo federal, em
2010), não os substituísse. Mas experiência
não muito distante revela que novos recursos
carimbados não se somam aos livres, já
alocados para o setor; substituem-nos, liberando-os
para migrarem alegremente para ONGs amigas ou para
trens-bala da vida. E doentes continuarão
padecendo em macas nos corredores dos hospitais.
O que falta é gestão menos obscena
do dinheiro público.
(*) economista , ex-coordenador
tributário da Secretaria da Fazenda do Estado
de São Paulo e sócio-diretor da CP
Consultores Associados Ltda (clovis@cpconsultores.
com .br)