"In this world nothing is certain but death and taxes"

(Benjamin Franklin, 1789)

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Marilena intuiu

Clóvis Panzarini *

 

 

Marilena intuiu.

 

Clóvis Panzarini

 

            Mísero vintém foi a gota d’água no copo dos malfeitos produzidos cotidianamente pelo despudor dos poderes constituídos. O Governo não percebeu que em algum momento a farsa marqueteira perderia eficácia. Cooptava a base da pirâmide social com Bolsa Família e o ápice com “Bolsa BNDES”, empanturrando os abastados com empréstimos a juros subsidiados pelo Tesouro. E a classe média surfava no pleno emprego. Na área política, cooptou, sabemos todos como, enorme base aliada, cujo comportamento ético ruborizaria qualquer petista modelo 1990. Esse aparente mar de tranquilidade alimentou a arrogância do Governo, cuja única agenda era a perpetuação no poder.  A sociedade passou a ser tratada como mero detalhe, supostamente iludida por lindas imagens da propaganda oficial que alardeava uma Suíça morena, enfeitada por sorrisos de crianças bem nutridas e olhares agradecidos de pacientes em hospitais-modelo. Porém, na outra ponta tinha um povo, padecendo em macas nos fétidos corredores, espremido como gado em ônibus  lotados e massacrado pela bandidagem fora de controle. Enquanto a economia andava bem engolia tudo... Mas, de repente, ela começou a patinar pela gestão incompetente que fez o Brasil perder a extraordinária janela de oportunidade aberta pela bonança internacional.  Desprezando  princípios elementares de economia, o Governo imaginou que o País pudesse crescer indefinidamente via incentivo ao consumo (à demanda), com juros baixos, crédito fácil, tarifas congeladas etc,  e desincentivo ao investimento (que gera oferta). Tratava o investidor privado – o que produz os tais bens e serviços de consumo - como inimigo, impondo margens, tarifas e outros discursos com viés ideológico.  De outro lado, os inexpressivos investimentos públicos -   por falta de recursos e  de gestão (no ano passado representaram ridículo 1,36% do PIB) -  deixavam a infraestrutura arruinada. A responsabilidade fiscal foi relegada a  segundo plano, com gastança desenfreada de um lado – 39 ministérios, estádios, abjetas mordomias, amantes de autoridades viajando com dinheiro público etc - e redução de impostos sobre bens de consumo, de outro. As contas públicas se esgarçaram: nos últimos doze meses os juros da dívida nos três níveis de governo consumiram 4,81% do PIB (14% da carga tributária), enquanto o superávit primário representou apenas 1,89% do PIB. Apesar da “contabilidade malandra” (o verdadeiro número é pior) faltaram 2,92% do PIB para pagar os juros.  A política econômica populista perdeu – se é que algum dia teve – completamente o rumo.  As contas externas estão perigosamente entrando no vermelho (déficit nas transações correntes de US$ 39,6 bilhões até maio), a atividade econômica patinando, a Bolsa de Valores derretendo, as  tarifas públicas defasadas (quebraram a Petrobrás) e a inflação escapando do controle, corroendo salários. O consumidor/eleitor estava feliz,  mas quando a conta não fecha, a inflação acorda e faz barulho. Os tais R$ 0,20 foram o gatilho da explosão social que colocou a moçada nas ruas e pegou o Governo no contrapé do constrangimento orçamentário.  O passe livre em ônibus, metrô e trens, essa utopia infanto-juvenil, apenas na capital paulista custaria R$ 14 bilhões/ano (4,4 bilhões de bilhetes/ano a R$3,20 - só a Prefeitura gastaria 52% da receita tributária orçada para 2013).   Em todo o País, o passe livre custaria quatro vezes mais. Haja aumento de impostos (mais passeatas!) para pagar a festa.  Os “pactos” anunciados pela Presidente parecem ter sido redigidos pelo marqueteiro de plantão. Um deles vincula para a educação a receita de  royalties sobre petróleo que ainda não existe (a produção massiva do pré-sal vai demorar, ainda, muitos carnavais). O da mobilidade urbana promete mais R$ 50 bilhões (um trem-bala!), sem explicitar fonte e sequer se constranger com a “briga” com outro “pacto” , o da responsabilidade fiscal.  Marilena Chauí, ideóloga do PT, em evento do partido em maio último, chamou a classe média brasileira de “violenta, fascista e ignorante”. Vislumbrou que ela faria os poderosos tremerem. Especialmente os seus amigos de Brasília.

 

Economista, é sócio diretor da CP Consultores Associados Ltda (www.cpconsultores.com.br)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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