Entrevista publicada
no Jornal do Economista CORECON – SP, edição
de abril/2006
“Existe
hoje no Brasil, com o ICMS, um inferno tributário.
E com as condições vigentes, a tão
esperada reforma fiscal não vai sair”
O Economista
Clóvis Panzarini é um especialista
em Finanças Públicas. Trabalhou e
estudou o assunto durante toda sua carreira, da
qual faz parte um longo período de atuação
na Secretária da Fazenda do Estado e São
Paulo, onde acompanhou bem de perto tudo o que se
fez, e não fez, no ICMS-Imposto de Circulação
de Mercadorias e Serviços, que na época
de sua criação era um verdadeiro IVA
(Imposto sobre Valor Agregado), conduzido de forma
centralizada e uniforme pelos governos do período
militar. Depois de 1984 foi sendo modificado e desfigurado,
até chegar ao que se entende hoje por guerra
fiscal, uma luta inglória onde perdem todos.
Sobre esse e muitos outros pontos das finanças
públicas ele nos concedeu entrevista exclusiva,
que reportamos aqui.
Textos e fotos: Sergio Storti
Chamada de capa:
A análise completa de um problema, de uma
legislação, de um novo modelo tributário,
como é o proposto pela PEC 285/04, que trás
problemas seríssimos de burocracia, administração
e fiscalização, quando feitas por
um economista, um especialista como Clóvis
Panzarini, mostra toda a extensão e capacidade
do profissional da Economia, que tem formação
e capacidade de avaliar todos os aspectos econômicos
e operacionais, sem deixar nenhum flanco aberto,
sem verificação e opinião.
Nesta entrevista um belíssimo exemplo da
capacidade dos economistas em dissecar questões
de alto calibre e importância, que envolvem
a própria receita do país e dos Estados,
e sua sobrevivência.Acompanhe na página
4.
Olhos
Para melhor encaminhar esses
problemas todos e buscar soluções
viáveis tanto do lado fiscal como do econômico,
acho que os economistas tinham que entrar com muita
força nesse debate da questão tributária
no Brasil.
No ano passado, de uma receita líquida de
404 bilhões, o Governo investiu no país
10 bilhões de reais!
Na rubrica “Outras Despesas Correntes”,
que é aquele balaio onde cabe tudo que é
desperdício, como publicidade, propaganda,
a querosene do aerolula, etc, o gasto foi de 55
bilhões de reais, cinco vezes e meia os investimentos
do Governo Federal em infra-estrutura. Isso é
trágico! Depois não se sabe porque
o Brasil cresceu só 2,3%, ganhou apenas do
Haiti em taxa de crescimento, enquanto que os países
emergentes cresceram 6,1% e o mundo 4,5% na média.
Este Governo teve muita sorte.
O país só está andando, e relativamente
bem, não tanto quanto muitos outros países,
porque o mundo vai bem. Mas, com qualquer crise
que eventualmente venha a acontecer no panorama
internacional poderá acabar com essa fantasia
toda.
Em 2.001 chegou a ser oferecido ao Governo uma proposta
que melhoraria bem o sistema tributário,
com a criação de um grande IVA nacional,
partilhado entre União e Estados; se acabariam
o IPI, PIS, COFINS, ICMS e ISS. Chegou-se a ter
um consenso entre os Estados, e nesse grande Imposto
sobre Valor Agregado se faria um princípio
de destino para acabar com guerra fiscal e resolver
todos esses problemas. E o modelo ficou bom pronto,
acabado, mas, na hora “H”, o Governo
Federal ficou com medo de perder receita com a extinção
do PIS COFINS, e o vetou. E acabou não dando
em nada...
Texto da entrevista:
SS
–Se observarmos a nossa história,
de 1930 para cá, vamos ver que os governos
nunca gostaram muito de fazer contas, buscando por
equilíbrios nas finanças públicas
normalmente só quando a coisa já havia
desandado, e as conseqüências pelo descaso,
sempre duras, já estavam patentes. Que visão
o senhor tem desse encadeamento de problemas, ainda
até hoje não resolvidos?
Clóvis Panzarini –Eu
acho que a grande guinada nas finanças públicas
brasileiras se deu com a Lei de Responsabilidade
Fiscal, que veio mudar tudo nessa área. Até
então não se tinha uma percepção
adequada do papel do Estado. A sociedade, ou a maior
parte das pessoas, pelo menos, imaginava que o Estado
podia tudo, e que, portanto, a responsabilidade
fiscal não precisava ser observada. Na verdade,
o Estado é um ente abstrato - eu costumo
dizer que ele é meramente o ‘síndico
do condomínio’, uma ficção
jurídica - e como tal, não pode gastar
mais do que arrecada, sob pena de criar dívida
pública, pois como não existe almoço
grátis, cada centavo gasto além do
arrecadado se transforma em dívida: o déficit
de hoje é a dívida de amanhã.
E o Brasil, até 1995, ou até 97/98,
acumulou uma dívida pública fantástica,
que já passou hoje da casa de um trilhão
de reais, dívida líquida.
SS -A responsabilidade é
então um conceito novíssimo mesmo,
e só se acordou para ele depois de formada
essa dívida gigante, com a porteira já
arrombada. Mas mesmo assim já a vemos sendo
minada, inclusive com fortes correntes a combatendo,
como se isso fosse possível, ou lógico.
Será que ela resistirá a esse ano
de eleições?
CP –A questão toda
é que os governantes acabam politizando o
Orçamento, e isso é um desastre porque
eleva sistematicamente a dívida, e enquanto
o Brasil não enfrentar de fato, com realismo
este seriíssimo problema vamos patinar no
nosso crescimento. E como decorrência entramos
num circulo vicioso em que o governo aumenta os
juros para conter inflação, e os juros
acabam aumentando a dívida – que exigem
novos recursos para pagamento de juros, pois o Governo
é o grande devedor: 52 ou 53% da dívida
pública brasileira está indexada à
Selic. Então cria-se o absurdo: no ano de
2.005 o superávit primário conseguido
foi de noventa e três bilhões e pagou
juros de 150, ou seja, estamos efetivamente “enxugando
gelo”, e a dívida cresce cada vez mais.
SS – Mas parece que o país
está cego para isso, ou a maioria não
entende o problema, pois isso não é
levado a sério, mesmo se vendo todo dia vozes
mais responsáveis alertando para isso, como
é o seu caso na Rádio Jovem Pan de
São Paulo? Se a cada dia se acumulam mais
dívidas o fim é o desastre, ou não?
E ao mesmo tempo as declarações oficiais
são sempre laudatórias à Economia
e à sua excelente performance, não
reconhecendo quaisquer problemas nela, fazendo propaganda
de ter pagado o FMI, etc.
CP – Bem, no caso do pagamento
ao FMI eu diria que é quase que um crime
de lesa pátria, porque o Governo tem um pacote
de dívidas, e escolheu para quitar antecipadamente
o “papagaio” mais barato que ele tinha,
que era esse dinheiro do FMI. Ao invés de,
por exemplo, quitar pedaços da dívida
indexada em Selic, que corre a 17,5% aa, foi pagar
contas que sofrem 3 ou 4% de juros aa porque essa
é uma bandeira política interessante,
segundo o interesse de seus autores. É claro
que há alguns efeitos colaterais interessantes
do ponto de vista de política externa, não
podemos ignorar, mas do ponto de vista prático,
que é o que interessa, corremos para quitar
exatamente a dívida mais barata. E nem se
pode dizer que com isso ‘vamos nos livrar
das amarras do FMI’, pois já vínhamos
fazendo muito mais do que o Fundo pede, fazendo
4,85% de superávit contra os 4,25% recomendados.
Não é verdadeira, portanto, a afirmação
que com aquele pagamento ‘não precisamos
mais seguir a cartilha do FMI’: já
a estamos seguindo há tempos, e muito além
dela até das exigências.
Com tudo isso, ficamos então naquele circulo
vicioso: taxa de juros, carga tributária
e dívidas elevadas. Estas três coisas
são interligadas: a taxa de juros aumenta
a despesa corrente, e é preciso fazer superávit
primário para pagar a dívida, para
o que ou se cortam investimentos ou se aumenta a
carga tributária. Esta já está
no limite, não dá mais para aumentar,
e o Governo vai cortando investimentos, com o que
estamos deteriorando totalmente nossa infra-estrutura.
SS – As estradas são
o exemplo claro disso...
CP – E aí aparece
o momento eleitoral, e vai o presidente inaugurar
buraco tapado...Isso só não é
cômico porque é trágico.
Para se ter uma idéia dessa situação
temos alguns números. No ano passado o Governo
investiu 10 bilhões de reais de uma receita
líquida de 404 bilhões de reais!
Em Outras Despesas Correntes, que é aquele
balaio onde cabe tudo que é desperdício,
como publicidade, propaganda, querosene do aerolula,
etc, aquela rubrica “Outras”, o gasto
foi de 55 bilhões de reais, cinco vezes e
meia os investimentos do Governo Federal em infra-estrutura.
Isso é trágico! Depois não
se sabe porque o Brasil cresceu 2,3%, só
ganhou do Haiti em taxa de crescimento. Enquanto
que os países emergentes cresceram 6,1% e
o mundo 4,5% na média.
SS – Diante desse quadro,
de aumento de dívida, juros altos, carga
elevada e crescimento baixo, até quando a
situação se agüenta?
CP –Este Governo teve muita sorte.
O país só está andando, e relativamente
bem, não tão bem quanto muitos outros
países, porque o mundo vai bem. Mas, com
qualquer crise que eventualmente venha a acontecer
no panorama internacional poderá acabar com
essa fantasia toda que nós estamos vivendo.
SS – Como as crises que atingiram
o Governo FHC, Rússia, Ásia etc.?
CP – Exatamente. A ‘droga’
que estimula e está fazendo andar o Brasil
é a economia mundial, que é uma variável
externa, sobre a qual não temos governabilidade.
Precisamos rezar para que o mundo continue bem,
e aí continuaremos caminhando. Porque com
esse panorama, com esse perfil das finanças
públicas, corremos riscos.
SS – Durante o atual Governo
a dívida aumentou em quase 60%, de 623 bilhões
de reais para mais de 1 trilhão agora. Nos
3 últimos anos do Governo anterior, saiu
de 441 bi para a casa dos 600 bi, ou seja, em 6
anos aumentou mais de 150%, aumentando em 600 bilhões
nominais. Não era para o país estar
assustado?
CP – Essa dívida é
composta por 2 elementos: a irresponsabilidade fiscal
passada, estamos pagando a conta da farra fiscal
do passado, e a política de juros recente,
que a fez aumentar nos últimos tempos, na
medida em que não conseguimos fazer superávits
primários nem para pagar o serviço
da dívida.
Aliás, essa expressão ‘superávit
primário’ dá a falsa idéia
de sobra, porque essa expressão significa
capacidade de pagar a dívida; só que
se o serviço da dívida é maior,
não temos superávit nenhum, temos
déficit! Nos três primeiros anos do
governo Lula o superávit primário
– a falsa “sobra” – foi,
na média, equivalente a 4,56% do PIB, enquanto
no mesmo período o déficit nominal
– a verdadeira “falta”- foi de
3,66% do PIB. É claro que esse déficit
nominal se transformou em nova dívida.
SS – Quem foi que conseguiu
fazer passar essa idéia errada, e como ela
pode ser adotada assim, tranqüilamente? Que
‘escola’ inventou isso?
CP – Os economistas são
criativos para imaginar essas expressões
que dão falsas idéias; são
dissimulações. Nós temos déficit
no Brasil, não superávit.
SS – Bem, o quadro é
esse. Diante dele, o que se pode fazer para melhorar
as finanças públicas e no que pensar
para encaminhar seriamente para soluções?
Por onde começar?
CP – Acho que o país
precisa de uma reforma tributária urgente,
não essa reforma que está lá
no Congresso. O sistema tributário brasileiro
se constitui hoje num dos principais entraves ao
crescimento econômico; a barafunda fiscal
criada pelos remendos feitos ao longo do tempo está
tornando o país ingovernável.
Especialmente na área do ICMS, que é
um imposto estadual, mas que tem características
de imposto nacional. Na verdade o ICMS, sendo imposto
do tipo valor adicionaldo, é um tributo de
natureza federal, mas que foi colocado no Brasil
na competência estadual na época dos
governos militares. O ICM, antecessor do ICMS, foi
implementado em janeiro de 1967, e o Brasil é
um dos pioneiros na experiência com o IVA,
Imposto sobre Valor Agregado, que é o que
realmente era o ICM; a França começou
em 68 com ele, nós em 67. Até então
apenas a Costa do Martin tivera experiência
com esse tipo de imposto.
SS –E porque ele se desvirtuou?
CP – Ele funcionou maravilhosamente
bem até 1985, 1986, por aí; ou seja,
durante o regime militar funcionou bem porque era
um imposto de natureza nacional e naquele regime
não existia federalismo. Os Secretários
de fazenda estaduais eram indicados pelo Ministro
da Fazenda, e os Estados, na época, não
afrontavam o poder central, a lei centralizadora
do ICM. O sistema federativo existia só no
papel, pois o poder era, de fato, centralizado.
Começou o problema tributário a partir
da abertura democrática, aí por 1985,
1986, quando o sistema federativo volta a se robustecer
e os estados começam a se sentir politicamente
autônomos. Aí começa a guerra
fiscal. A Constituição de 1988 abriu
mais ainda, colocando na competência dos Estados
a fixação de alíquotas, que
até então eram determinadas pelo Senado
Federal. A partir de 89, foi implantado o ICMS,
Imposto sobre Circulação de Mercadorias,
que ganhou o S se referindo a Serviços, ao
qual se agregaram 5 novas bases tributárias:
serviços de transportes interestaduais e
intermunicipais, comunicações, combustíveis,
energia elétrica e minerais, todas elas,
antes sujeitas a tributação exclusiva
de impostos federais. Os estados e municipios tiveram
ampliadas as suas bases de tributação
às custas de perdas da União. À
época, o Governo Sarney preocupava-se em
manter cinco anos de mandato (porque a pressão
à época era muito forte para reduzir
da 6 anos para 4 o mandato do então presidente
da república), e não havia ninguém
defendendo os interesses do Governo Central na Assembléia
Nacional Constituinte. Então, os Estados
nadaram de braçadas, tiraram cinco bases
fantásticas de arrecadação
do Governo Federal, o filé mignon da tributação,
além de aumentar barbaramente os Fundos de
Participação de Estados e Municípios.
A União foi então, literalmente, desbastada
em sua capacidade de arrecadar, sem ninguém
para defendê-la. A briga era entre os Estados
para ver quem ganhava mais. E aí se fez um
pacto, não escrito, entre eles, e os estados
de Norte, Nordeste e Centro-Oeste se aquinhoaram
de recursos através de aumento no Fundo de
Participação de 14 para 21,5% da receita
do IPI e do Imposto de Renda. E os Estados de Sudeste
e Sul, cuja participação nos fundos
de participação é irrelevante,
se aquinhoaram tirando 5 bases parrudas de tributação
da União e adicionando-as ao seu ICM. Então,
todos os estados e Municípios ganharam barbaramente,
e a União perdeu fatias importantes de suas
receitas.
SS – E de onde passou a tirar
dinheiro?
CP -A União não se
preocupou muito não, porque a partir de então
passou a recompor as suas finanças através
de aumentos das receitas não partilhadas,
PIS, COFINS, CPMF, as chamadas contribuições
sociais, enfim, que à época eram cumulativas,
ou seja, impostos da pior qualidade. Assim, PIS
COFINS, que era de 1% foi para 3,6%, e a CPMF, que
hoje arrecada perto de 40 bilhões de reais.
Recompôs assim seu Orçamento com um
brutal aumento de carga tributária, feito
com tributos da pior espécie, cumulativos.
SS – Ou seja, foram duas
fontes, Os Estados e depois a União, que
desbastaram o mesmo objeto, no caso, o contribuinte
brasileiro? É um quadro triste...
CP – E todo esse excesso
só para pagar juros, sem investimentos no
país.
Os Estados, a partir de 92, se engalfinharam numa
guerra fiscal total, e transformaram o ICMS num
imposto inadministrável. Eu não entendo
como as empresas conseguem sobreviver com a qualidade
do ICMS, que representa quase um quarto da carga
tributária do país; é o principal
imposto do Brasil. É um imposto de péssima
qualidade, os Estados, a cada norma, criam barreiras
alfandegárias internas, criam cumulatividades
e dificuldades para o contribuinte. Por exemplo,
o ICMS não pode incidir sobre as exportações,
está escrito na Constituição,
só que os Estados, na medida que bloqueiam
os créditos relativos aos insumos dos bens
exportados, tributam indiretamente as exportações.
Agora, inventaram uma forma de dar isenção
com estorno de créditos, o que significa
que como a alíquota interestadual menor que
a interna, quando o Estado faz isso, o contribuinte
que teve a isenção é obrigado
a se abastecer em outro Estado, porque a alíquota
lá é menor, e como ele terá
que estornar o crédito mesmo é preferível
estornar 12%, por exemplo, do que 18%! São
Paulo mesmo fez isso recentemente, onde o contribuinte
é obrigado a se abastecer de embalagens em
outro Estado para jogar fora só 12%, pois
se comprar em São Paulo joga fora 18%. Criam-se,
então, barreiras alfandegárias às
avessas.
Existem armadilhas de todas as formas, de todos
os jeitos no ICMS, e os contribuintes são
obrigados, às vezes, a fazer triangulações
com mercadorias para reduzir carga tributária.
Isso ocorre, por exemplo, no trigo e seus derivados,
onde se deu isenção com estorno, e
quem compra farinha de trigo no Paraná paga
12% e joga fora, enquanto que quem comprar na Argentina
não paga nada, porque essas importações
gozam de diferimento no lançamento do ICMS.
Então se discrimina contra a própria
indústria brasileira em favor da produção
do resto do mundo. O Rio de Janeiro, por exemplo,
criou uma zona de livre comércio de importações,
devolvendo o ICMS de mercadorias fabricadas no resto
do mundo, que concorrem em condições
vantajosas com a produção nacional.
Esse é o inferno tributário que existe
hoje no Brasil, com o ICMS.
SS – Como funcionam os ressarcimentos
de créditos aos exportadores?
CP - Os exportadores acumulam milhões
em créditos de insumos, e os Estados não
honram esses créditos, e isso vira custo
para o empresário exportador. Não
funciona, e por isso o Brasil cresce 2,3% enquanto
que outros crescem 6%. Funciona mal, e por isso
estamos nos arrastando.
Outro paradoxo do sistema fiscal é que, como
recursos para fiscalização são
escassos, usa-se quase sempre o critério
da relevância para selecionar contribuintes
fiscalizáveis, faz-se a curva ABC e seleciona-se,
por exemplo, os 100 maiores contribuintes para fiscalizar.
São os que pagam impostos, pagam porque são
fiscalizados. E são fiscalizadas porque pagam.
É claro que existem vários programas
de fiscalização, programas aleatórios
que selecionam contribuintes independentemente do
porte, mas o grosso do esforço fiscal acaba
ficando em cima dos grandes contribuintes, sobre
aqueles que têm a base de informações
boa e que são representativos na receita
e arrecadação.
Outra praga do sistema tributário é
a sonegação, porque quebra um princípio
da isonomia, pois o contribuinte honesto, que paga
impostos, acaba concorrendo com aquele que não
paga, claro, em condições desfavoráveis.
Guerra fiscal é uma outra quebra de isonomia.
SS –Que armas estão
se usando na guerra fiscal?
CP – A guerra fiscal consiste no
processo de atração de empresas para
os Estados que querem se industrializar. Hoje praticamente
todos os Estados oferecem benefícios fiscais
para atrair investimentos. Mas, esse benefício
fiscal não é isenção,
como muita gente imagina, ele consiste em financiar
o imposto a longo prazo, ou seja, propõe-se
que se pague o imposto, por exemplo, dali a 20 anos
do fato gerador, sem juros nem correção
monetária. Na verdade, é tudo um faz
de conta, porque não se vai pagar nada, porque
o próprio estado, depois, vende o título
com 95% de deságio ao próprio contribuinte,
por exemplo. É assim que funciona. Financia-se
impostos por vinte anos, e o devedor recompra os
títulos com deságios quase que totais
e não paga nada.
SS – Outro ataque à
concorrência leal
CP - Então, se tem no mercado
automóveis que pagam impostos concorrendo
com outros que não pagam, assim como produtos
dos mais diversos tipos na mesma situação.
Funciona para tudo essa “isenção”.
Todas as montadoras têm benefícios
fiscais. Por isso acho uma tolice dizerem que agora
que as tarifas vão ser uniformes vai acabar
a guerra fiscal: isso é bobagem, a guerra
fiscal não se faz com alíquotas. O
carro baiano chega aqui com 12% de ICMS, só
que a montadora vai pagar isso daqui a 30 anos,
recomprável por 0,5%. É assim que
se faz a guerra fiscal, com procedimentos financeiros,
que no final vira isenção. Finge-se
que se paga lá atrás para não
pagar lá na frente.
SS – E por isso as montadoras
se foram todas de São Paulo?
CP – Nos outros Estados todas
as montadoras têm benefícios fiscais.
Se a empresa tem uma fábrica que paga impostos
e outra que não, qual ela vai incrementar?
Um primeiro paradoxo da guerra fiscal é que
quem banca o subsídio é a vítima,
porque a mercadoria que vem para São Paulo,
por exemplo, leva daqui os 12% cobrados do consumidor,
que vão para a concessionária, que
paga para a montadora situada no Estado guerreiro,
que finge que recolhe ao seu fisco. O dinheiro sai
do cofre do Estado consumidor e vai bater no bolso
do investidor incentivado. Quem paga tudo é
o consumidor do Estado que consome o bem.
É por isso que se diz que a única
forma de acabar com a guerra fiscal é acabar
com a tributação na fronteira, ou
seja, tributar integralmente o bem no destino. Aí,
se o Estado de produção vai ficar
com zero de imposto sobre o que produz ele não
tem o que devolver.
SS – Diante desse verdadeiro
inferno tributário, o que esperar em termos
de reforma tributária no Brasil?
CP - Para consertar tudo isso,
a primeira coisa a fazer seria federalizar o ICMS,
ele não pode ficar na alçada sos Estados,
no mundo inteiro é um imposto federal; teria
que ser federalizado ainda que a receita, e mesmo
a fiscalização, fossem integralmente
dos Estados, mas teria que ser gerido de forma centralizada.
Mas isso é hoje politicamente impossível,
porque o federalismo fiscal cristalizou-se dessa
forma, com essa distribuição do bolo
tributário. E mudar isso agora como? Não
se muda...
SS – Então, não
haverá reforma tributária?
CP – Eu acho que... não!
Acho que não, vamos ter, provavelmente, algum
remendo tributário, em algum momento...
SS - E cada vez vai piorando mais,
porque cada um puxa para o seu lado e é essa
a guerra fiscal.
CP – É, e cada vez
fica pior. Em 2.001 chegou a ser oferecido ao Governo
uma proposta que melhoraria bem o sistema tributário,
com a criação de um grande IVA nacional,
partilhado entre União e Estados; acabar-se-iam
com o IPI, PIS, COFINS, ICMS e ISS. Chegou-se a
ter um consenso entre os Estados, e nesse grande
Imposto sobre Valor Agregado se faria um princípio
de destino para acabar com guerra fiscal e resolver
todos esses problemas. E o modelo ficou bom pronto,
acabado, mas, na hora “H”, o Governo
Federal ficou com medo de perder receita com a extinção
do PIS COFINS, e o vetou. E acabou não dando
em nada...O projeto havia nascido no próprio
Governo federal, em 1995, ficou durante cinco anos
na Comissão de Tributação da
Câmara, criou-se uma comissão tripartite,
com autoridades federais, parlamentares e Estados,
e esta chegou a um consenso. São Paulo sempre
fora um entrave para se resolver a questão
do destino, porque é sempre perdedor, exportador
líquido que é, e se a tributação
é no destino São Paulo perde liquidamente
12% de sua receita, mas o governador Covas, na época,
aceitara a oferta porque ela seria implantada aos
poucos, e se colocaria na base do ICMS todos os
serviços, desaparecendo o ISS, e com os municípios
compensados por um imposto sobre varejo. Fechou-se
o modelo, mas na última hora o Governo Federal
vetou, não deixou a idéia prosseguir.
Muito desse projeto foi de nossa criação,
e na comissão tripartite São Paulo
representava a Região Sudeste.
SS – E de lá para
cá?
CP – De lá para cá
não aconteceu mais nada. Aliás, aconteceu
o pior, a proposta de reforma tributária
oferecida pelo Governo em 2.003, que é a
que está posta, eu acho um desastre. O grande
charme dessa proposta, segundo seus idealizadores,
o atual Governo Federal, é que ela prevê
a unificação das alíquotas
em nível nacional, uniformização
horizontal das alíquotas, nenhuma mercadoria
teria tarifa diferente, com 5 faixas estipulando
para as mesmas mercadorias a mesma taxação
no Brasil inteiro. A legislação e
regulamentação seria nacional também,
e a cobrança na fronteira seria feita integralmente
na origem, com repasse para o Estado de destino
da parte que lhe pertence. Esses, basicamente, são
os três grandes pontos do modelo. O que eu
acho que, em primeiro lugar, a padronização
de alíquotas vai resultar num brutal aumento
de carga tributária, porque será feita,
inequivocamente, pelo teto! O óleo diesel,
por exemplo, que é tributado em 12% de São
Paulo para baixo e 18% de Minas para cima, obviamente
vai ser padronizado nos 18%. Nenhum Estado vai aceitar
perder receita. Por outro lado, a padronização
da regulamentação do novo ICMS está
sendo feita a 54 mãos, pelos 27 Estados,
de forma que os Estados que já avançaram
em termos de simplificação vão
ter que abrir mão de seus avanços
em favor dos que não progrediram. Cada Fisco
estadual vai querer colocar no regulamento nacional
todos os seus caprichos e idiossincrasias locais,
senão não aprovam. Se um Estado do
Norte, por exemplo, exige que o pescador artesanal
tire uma nota fiscal em 10 vias, vai querer que
essa obrigação acessória esteja
no regulamento nacional, e o contribuinte de São
Paulo vai ter de obedecer, e assim por diante em
milhares de casos: o regulamento nacional acabará
por ser a soma dos regulamentos de 27 Estados! Não
se vai substituir 27 regulamentos por um, como se
apregoa, mas sim um por 27!
A outra questão que vai implicar enorme aumento
de complexidade é a cobrança na fronteira.
O modelo tributário que está em discussão
prevê que em cada operação interestadual
será aplicada a alíquota interna.
Então, hoje, se a alíquota interestadual
é 12% e a interna é 18%, o contribuinte
de São Paulo que manda mercadoria para Minas
paga 12% e acabou. No modelo novo, se essa mercadoria
for submetida a uma alíquota de 18%, ele
deverá fazer 2 pagamentos em cada operação:
vai lançar 12% em favor de São Paulo,
vai pagar antecipadamente 6% ao Tesouro de Minas,
antes de sair a mercadoria, nota a nota, caminhão
a caminhão. Isso significa que ele vai passar
a ser contribuinte de todos os Estados onde ele
tenha clientes; as empresas que servem o Brasil
inteiro haverão de se inscrever em 27 Fiscos,
e a própria Emenda Constitucional prevê
que a Lei Complementar vai definir a forma como
cada Fisco estadual fiscalizará os contribuintes
localizados fora das fronteiras de seu Estado. Vai
se a alegria das companhias aéreas, pois
cada Fisco Estadual vai ter competência em
todo o território nacional para fiscalizar.
E cada contribuinte passará a ser também
contribuinte do Estado da localização
de seus clientes. E estão dizendo que o novo
modelo vai “simplificar”!
SS – Em que pé está
isso? Há o perigo de ser aprovada?
CP – É a PEC 285/04
Proposta de Emenda Constitucional. Está todo
mundo encantado com ela, inclusive os empresários
que estão aparentemente satisfeitos porque
serão apenas 5 alíquotas e um único
regulamento: parece-me que ninguém leu as
entrelinhas. O atacadista de arroz aqui da Rua Santa
Rosa, que vai vender umas sacas para o Ceará,
vai ter que fazer uma guia de recolhimento e recolher
o imposto ao Tesouro do Estado do Ceará antes
de sair a mercadoria. E em algum dia receber aqui
no seu estabelecimento no Bairro do Mercado a visita
de um fiscal cearense, que talvez aproveite a viagem
para comer um bom sanduíche de mortadela
lá no Mercadão. Vai haver fila de
fiscais multiestaduais na porta das empresas, que
provavelmente terão que distribuir senhas...
SS – Então, o péssimo
vai ficar pior?
CP – Eu acho! Acho que esse
modelo consegue piorar aquilo que já é
muito ruim. É uma tentativa de federalização,
mas feita pelos próprios Estados, que têm
como único objetivo, me parece, combater
a sonegação fiscal. Não deixa
de ser um objetivo nobre, porque se diz que existe
sonegação muito grande quando há
alíquotas diferentes, e o contribuinte simula
destino, diz que vende para Mato Grosso, cuja operação
é tributada a 7% mas entrega a mercadoria
em Campinas, cuja operação é
tributada a 18%; por isso, então, agora vai
se cobrar cheio para todo mundo, cobrar antecipadamente
a diferença de alíquota para não
‘passear’ mercadoria, não ‘passear’
nota fiscal. É um objetivo válido,
mas não podemos nos preocupar apenas com
a sonegação, temos que ter um modelo
que tenha um mínimo de eficiência econômica.
Temos que pensar em outros aspectos também,
como o agigantamento do Estado, que como sempre
diz o Professor Delfim, não cabe no nosso
PIB. O Estado brasileiro custa 33% do PIB, sem as
despesas de juros, arrecadou-se 38%, sobraram 5%
de superávit primário, mas ainda faltaram
3,5% do PIB que foi o déficit nominal daquele
ano; A “chamada extra” de 5% do condomínio,
portanto, não foi suficiente para pagar o
saque a descoberto no passado. A questão
previdenciária é uma das mais complicadas
que se tem, com uma lei feita há 50 anos,
quando a condição era outra, a longevidade
do servidor era menor, e a conta é simples:
não é possível o trabalhador
contribuir 35 anos com 11% do salário e depois
receber viver outros 35 anos recebendo 100% do salário:
a conta não fecha, simplesmente.
Temos então o buraco previdenciário,
o buraco dos juros, que decorre da dívida,
da farra do passado, além dos óbvios
desperdícios e desvios que, todos sabemos,
existem no governo e aí sobram de 404 bilhões
só 10 bilhões para investir por ano.
E aí o país está parado, não
consegue deslanchar.
SS – Como pode se encaminhar
soluções para isso?
CP – Eu acho que sem colocar
economistas nessa discussão não vamos
resolver nunca a questão tributária.
O tributarista, o legislador, o jurista tem a preocupação
com a pureza jurídica da norma; ele não
tem, e nem tem obrigação de ter, a
visão macro econômica do modelo tributário.
Essa contribuição precisa ser buscada
com os economistas profissionais.
As soluções técnicas econômicas
passam também pela questão política,
pois a questão tributária é
um nó que precisa ser resolvido, pois as
empresas cada vez mais deixam de investir. A todo
o momento passam pelo meu escritório empresas
que dizem estar deixando de trazer investimentos
para o país porque o sistema tributário
é impraticável. Existem contribuintes,
exportadores, empresas multinacionais, que têm
créditos acumulados de ICMS decorrentes de
exportações que chegam a 100 milhões
de dólares, que não conseguem receber,
e aparecem no balanço como ativo da empresa.
As matrizes, que estão lá fora não
conseguem entender que há créditos
junto ao Governo e não se consegue recebê-los.
Eles não conseguem entender que aquele ativo
não tem liquidez: o Governo não honra
os créditos decorrentes das compras de insumos
que deram origem aos produtos exportados, créditos
conseguidos nas compras de matérias primas
que o Estado não deixa os contribuintes aproveitarem:
não paga. Existem casos em que a Matriz manda
estornar o crédito, mandar para Lucros e
Perdas, pois julgam que esse é um caso de
maquiagem de balanço, e aí cai a diretoria
inteira. É um ativo que as empresas não
conseguem recuperar.
Para melhor encaminhar esses problemas todos e buscar
soluções viáveis tanto do lado
fiscal como do econômico, acho que os economistas
tinham que entrar com muita força nesse debate
da questão tributária no Brasil.
(*) economista , ex-coordenador tributário da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo e sócio-diretor da CP Consultores Associados Ltda (clovis@cpconsultores. com .br)