"PEC
285 não resolve, só piora"
"Para o ex-coordenador da Fazenda de São
Paulo, discussões sempre esbarram na questão
regional".
Entrevista
publicada ao Jornal “Gazeta Mercantil”,
edição de 09 de outubro de 2006
Sandra Nascimento
Às vésperas
do segundo turno da eleição que irá
definir o próximo presidente do Brasil, a
discussão em torno da questão fiscal
ganha força mas, na avaliação
do economista e ex-coordenador tributário
da Secretaria da Fazenda do Estado de São
Paulo Clóvis Panzarini,
hoje sócio-diretor da CP Consultores Associados,
os debates parecem estar sempre na estaca zero,
como há trinta anos.
O equilíbrio fiscal brasileiro, diz ele,
é um equilíbrio de fio de navalha.
O déficit previdenciário e as despesas
com o pagamento dos juros sufocam qualquer possibilidade
de crescimento, diz o consultor, obrigando o País
a patinar entre 2% e 3% de expansão do Produto
Interno Bruto (PIB). “Não sobra dinheiro
para investimentos”, diz ele, para quem só
uma reforma tributária eficiente resolveria
o problema que envolve, além da delicada
equação de reduzir as despesas e aumentar
os investimentos, o urgente fim da guerra fiscal
entre os estados. Mas para se chegar próximo
ao ideal, seria preciso que as partes envolvidas
deixassem de lado os interesses políticos
e regionais. Possibilidade que deixa Panzarini,
que trabalhou no governo de Mário Covas,
pessimista. “Uma ‘concertação’
na qual a questão regional seja desprezada
e se pense apenas na busca da eficiência,
da racionalidade, é muito fácil tecnicamente
mas muito difícil politicamente”, diz.
Gazeta Mercantil - Como o senhor vê hoje a
situação fiscal do País?
Clóvis Panzarini - Eu acho
que o equilíbrio fiscal do País é
um equilíbrio de fio da navalha. È
muito complicado porque temos despesas estruturais
que não se cortam a não ser com profundas
mudanças estruturais, previdência,
dívida... se nós pegarmos a composição
da despesa pública, nós vamos ver
que temos dois componentes, o déficit da
previdência e o déficit com juros,
que afoga o País. O que está acontecendo
é que todo o ajuste está sendo feito
em cima do investimento. O Brasil tem um investimento
ridículo, que compromete a capacidade de
o País crescer. O setor público do
Brasil investe 2% do PIB e não cria condições
de infra-estrutura para o desenvolvimento sustentável.
Enquanto o Brasil estiver crescendo 2%, 3%, como
está sendo nas últimas décadas,
empatando com o Haiti, o Brasil vai se equilibrando,
mas nós não vamos conseguir sair disso.
GZM - Há solução?
Panzarini - Essas questões
são complicadas, primeiro porque uma reforma
previdenciária tem um custo político
elevado e não tem efeitos no curto prazo,
existem os chamados direitos adquiridos. A questão
dos juros da dívida pública também
é complicada, porque o governo não
paga juro alto porque ele quer, é porque
as coisas têm que ser assim, enquanto o País
tiver uma dívida de 50% do PIB, ele não
tem como fazer diferente. O déficit previdenciário
e as despesas com o pagamento dos juros sufocam
qualquer possibilidade de crescimento. Com esse
buraco o juro tem de ser alto, não sobra
dinheiro para investimentos. Juro alto e falta de
investimento trabalham contra o crescimento, e assim
nós vamos ficando sufocados...
GZM - Independente de quem ganhe as eleições
no dia 29, qual deverá ser a primeira medida
a ser tomada pela presidente da República
nesse sentido?
Panzarini - Precisa enxugar. Um
reforma tributária mais eficiente.
GZM - Essa proposta que está no Congresso
Nacional, resolve o problema?
Panzarini - Não, não
resolve nenhum dos problemas que nós estamos
enfrentando, nem da guerra fiscal, nem da complexidade,
nem da eficiência, nada. Pelo contrário,
acho até que ela piora. O governo tem que
procurar fazer uma reforma mais eficiente, não
acabar com a carga tributária, que não
é causa, é conseqüência.
Enquanto o Brasil tiver gastando 33%, 34% do PIB,
não pode arrecadar menos do que 37%, sobram
quatro para pagar a conta. E quatro é o superávit,
comprometido para pagar a dívida. Costumo
dizer que o superávit primário na
verdade é a chamada extra, para pagar o buraco
fiscal do passado. O governo é um condomínio,
se as despesas são altas, a taxa tem de ser
compatível. Então como reduzir a carga
tributária sem reduzir os gastos? Tem que
cortar os gastos.
GZM - Como?
Panzarini - Então o governo
tem que fazer a reforma tributária, tem que
enxugar o Estado onde puder, tem que trabalhar numa
reforma tributária que a médio prazo
consiga trazer mais racionalidade ao sistema e verificar
até que ponto pode mexer na taxa de juros.
Não se faz isso por decreto, mas deve-se
achar uma forma de evitar uma taxa que não
seja tão gravosa para o erário, que
é o governo, o grande pagador de juros, e
para a economia.
GZM - Quais seriam os principais pontos da reforma
tributária?
Panzarini - A minha convicção
é que o principal problema do Brasil hoje
se chama ICMS (Imposto sobre Circulação
de Mercadorias e Serviços). Ele representa
22, 23% da carga tributária do País,
é o maior imposto do Brasil e é um
imposto que virou um frankstein, a cada edição
do Diário Oficial ele fica pior, a cada reunião
do Confaz ele piora. É um imposto que tem
um pecado original, de nascença. Em 1967,
como ICM, ele foi erroneamente colocado na competência
estadual. O ICMS é um IVA (Imposto sobre
Valor Agregado) e a questão é que
o IVA é um imposto de competência nacional,
no mundo todo ele é nacional e no Brasil,
estadual. Funcionou bem durante 20 anos, enquanto
o Brasil não era uma federação
de fato. Os problemas começaram com a abertura
democrática, quando o federalismo de fato
passou a valer. Aí começaram todos
os problemas de guerra fiscal. Federalizar o ICMS
agora é complicado porque o federalismo fiscal
sedimentou-se, cristalizou-se com essa discriminação
de receita. O ICMS hoje, no estado de São
Paulo, representa 90% do orçamento. Agora
como vamos federalizar isso e transformar numa transferência
federal?
GZM - Boa pergunta...
Panzarini - Eu acho que nós
temos que procurar o meio termo, quem sabe criar
um IVA nacional dual, com um pedaço da União
e um pedaço dos estados, ambos administramos
isso aí e não apenas fazendo a federalização
do imposto, com a transferência para os estados,
como defende alguns, até porque politicamente
ele é inviável, até mesmo porque
não dá para imaginar federalizar toda
a receita tributária e o resultado disso
distribuir aos estados via transferência.
As transferências federais têm de ser
feitas de acordo com um critério, e esse
critério é decidido politicamente.
E aí nós batemos na questão
da representatividade dos estados no Parlamento.
Então eu acho que uma solução
possível é criar um IVA dual, federal
e estadual, um IVA compartilhado, com princípio
de destino, que é a única forma de
acabar com a guerra fiscal. Não adianta dizer
que é proibido conceder benefícios,
já é proibido hoje, mas os estados
não obedecem. Isso acabaria com o fato de
os estados legislarem unilateralmente, de forma
a acabar com esse cipoal de normas e de regras,
cada estado tem uma regra e a decisão de
um estado afeta a economia de outro estado.
GZM - Como sair desse imbróglio?
Panzarini - O vetor da guerra fiscal
é a alíquota interestadual. Se a alíquota
fosse zero, cada estado poderia legislar unilateralmente
sem afetar os outros estados, porque se a alíquota
é zero, a interestadual, você tem um
princípio de destino puro, ou seja, cada
estado legisla não para o seu produtor, mas
para o seu consumidor, qualquer que seja a alíquota
interna em São Paulo, o produtor do Paraná
irá se submeter a ela, então acaba
com a guerra fiscal.
GZM - Mas um dos entraves
é justamente a discussão entre os
estados que produzem muito e consomem pouco...
Panzarini - Esse é um problema,
qualquer alternativa tem problema. São Paulo
já teve 20% da receita decorrente do saldo
líquido da alíquota interestadual,
hoje está em torno de 10%, 12%, caiu pela
metade. Mas nós temos que achar uma forma
de caminhar para o princípio de destino sem
ofender de maneira muito forte as finanças
dos estados exportadores líquidos como São
Paulo. Por isso que eu acho que tem que fazer uma
reforma geral, que contemple não só
o ICMS, mas também os fundos distributivos.
Se uma reforma dessa natureza vai transferir receita
de São Paulo para o estado consumidor, é
razoável que se mexa no fundo de participação
(FPE) para diminuir a participação
do estado consumidor, que vai ser compensado de
outra forma, e recompensar o estado produtor, que
vai servir nesse novo modelo, de forma que a distribuição
horizontal permaneça a mesma. Porque São
Paulo tem hoje apenas 1% de participação
no fundo de participação dos estados,
enquanto outros pequenos têm 7%. Ou seja,
a participação de São Paulo
no FPE é praticamente desprezível,
sendo que 50% dos recursos saem de São Paulo,
e volta 1%. Então, se nós quisermos
racionalizar o sistema, nós podemos fazer
um modelo no qual São Paulo perca receita
própria, mas seja compensado pelo fundo de
transferência, ou seja, solução
econômica e matemática existe, precisa
agora ver se politicamente se consegue esse concerto
no Parlamento.
GZM - Da forma como o senhor coloca a questão
parece que tudo está ainda muito longe de
uma solução, já que a proposta
que está no Congresso, como o senhor diz,
parece não ser a solução...
Panzarini - Está tudo na
estaca zero. E essa proposta de reforma tributária
que está na mesa, a PEC 285, consegue piorar
o que já não presta. Eu acredito que
muito dos empresários não leram as
entrelinhas dessa proposta. Ela veio para simplificar
e complica extremamente o modelo, o ICMS dessa proposta
vai ser extremamente mais complicado do que o atual,
que o todos já reclamam que é complicado.
O mecanismo de cobrança interestadual desse
imposto é uma maluquice, cada operação
interestadual terá de ser precedida do pagamento
antecipado do imposto para o estado destinatário
da mercadoria, o que significa que cada contribuinte
que promove operação interestadual
haverá de se inscrever em tantos estados
quanto forem os seus clientes. Você pega,
por exemplo, uma Brastemp, que fornece para o Brasil
inteiro, ela terá que se inscrever nos 27
estados e ser fiscalizada por 27 fiscos, tudo isso
está escrito na proposta, cada estado vai
fiscalizar o país inteiro. E estão
dizendo que vai ser mais simples. Se um fisco incomoda
muita gente, 27 fiscos vão incomodar muito
mais...
GZM - Do jeito que o senhor fala, a proposta parece
inviável...
Panzarini - É inviável.
Outro ponto (da exposição de motivos
do Executivo que acompanha a PEC 285) que quero
destacar: acabar com a guerra fiscal. “Não
tem mais benefício fiscal, é proibido”.
Hoje também é proibido, só
que ninguém cumpre. Quando o Supremo Tribunal
toma uma decisão e diz que uma lei é
inconstitucional, o estado réu revoga e faz
outra, pior que a primeira, é o que tem acontecido,
e a guerra continua. Dizem também que, com
a PEC, os estados não vão poder legislar
em matéria tributária. Mas os benefícios
fiscais são feitos com legislação
financeira, financiamento de longo prazo do ICMS.
Nada vai proibir que um estado faça uma lei
financiamento 12% do faturamento de uma empresa
durante 20 anos e12%, por acaso, é a alíquota
estadual...
GZM - Há alguma esperança que isso
venha a se resolver um dia?
Panzarini - Confesso que não
estou otimista. Porque essa ‘concertação’
que haverá de ser feita terá de se
sobrepor a interesses políticos e regionais,
você não conserta o ICMS sem mexer
nos fundos distributivos e isso é questão
de honra para os estados do nordeste. Estou pessimista
porque passei trinta anos discutindo reforma tributária
e a coisa sempre bate na questão regional,
os conflitos são muito grande. Você
tem o conflito distributivo vertical, os três
níveis de governo brigando por uma fatia
do bolo tributário...e tem o conflito regional,
cada vez que você fala em reforma tributária,
todo estado que tem uma representação
política mais forte quer ganhar. Para haver
essa concertação onde a questão
regional seja desprezada e se pense apenas na busca
da eficiência, da racionalidade, é
muito difícil, politicamente. Tecnicamente
é muito fácil. Se cada um deixasse
de lado os interesses regionais e políticos,
para buscar um sistema tributário que mantenha
a exata atual distribuição atual da
receita e que seja razoavelmente racional...
GZM - Qual a conseqüência desse impasse
no médio e longo prazo?
Panzarini - O Brasil vai continuar
patinando, as conseqüências a gente está
vendo hoje. Desses todos os problemas que travam
o crescimento econômico, a questão
tributária é muito forte, o contribuinte
hoje tem uma insegurança jurídica
enorme.
(*) economista , ex-coordenador tributário da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo e sócio-diretor da CP Consultores Associados Ltda (clovis@cpconsultores. com .br)