'Estamos
muito longe de chegar ao consenso'
Fonte:
Jornal “O Estado de São Paulo, edição
de 8 de março de 2007
Entrevista
Ricardo Brandt
A reforma
tributária alardeada pelo governo do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva e a cobrança
dos Estados por uma maior fatia do bolo tributário
do País são duas questões legítimas,
mas caminham para o fracasso. O motivo: a falta de
consenso entre os governos. A opinião é
do economista Clóvis Panzarini. A seguir, a
entrevista:
A reforma tributária
anunciada pelo presidente Lula é um alternativa
para uma maior eficiência tributária
no País?
Se a reforma fosse feita
de maneira fria, sem interferências políticas,
ela seria de fácil solução. A
reforma não tem como objetivo redistribuir
receitas e sim otimizar o sistema. A reforma ainda
é um conceito. Ainda estamos muito longe de
chegar a um consenso, sobre de que modelo vai ser
feita, se vai fazer o IVA (Imposto sobre Valor Agregado),
se vai aplicar o ICMS na origem ou no destino. São
conceitos que, se forem aprovados, só serão
aplicados daqui uns 5 ou 8 anos.
A questão
do ICMS é o centro da discussão?
Na minha opinião,
o governo federal traz essa discussão do ICMS
menos porque precisa da reforma tributária
e mais porque quer a aprovação de uma
nova PEC (Proposta de Emenda Constitucional) para
a CPMF. Eles vão fazer o que fizeram em 2003,
quando se desenhou uma ampla reforma tributária,
cheia de pontos de consenso, e no final foi tudo fatiado.
Como acabar com
a guerra fiscal?
O ICMS é um imposto
sobre valor agregado. Como todo imposto de valor agregado,
ele é de natureza nacional. No Brasil, ele
foi colocado na competência estadual e essa
liberdade para Estados legislarem gerou a guerra fiscal.
Uma forma de combatê-la é fazer a cobrança
do imposto no destino. Mas existem muitos pontos a
transpor para conseguir efetivar essa mudança.
Um deles é que Estados que mais produzem terão
perdas que precisam ser equacionadas.
Há espaço
para uma maior distribuição da receita
entre Estados?
Essa é uma disputa
legítima, mas não há razão
conceitual para arbitrá-la. Antes da Constituição
de 88, a União ficava com 62% da receita arrecadada,
os Estados com 27% e os municípios com 11%.
Em 1992, a fatia da União era de 54%, ela perdeu
8 pontos porcentuais de tudo que era arrecadado, enquanto
Estados ganharam 3 pontos e municípios 5 pontos.
A partir de 1991, a União começou a
compensar essas perdas com as contribuições
não compartilhadas. Mas aí vêm
os Estados e dizem “não, eu quero um
pedaço disso aí porque é só
seu”. É ignorar a história. É
legítima a pressão dos Estados, afinal
são entes federativos. Agora, é legítimo
porque os Estados estão em dificuldades, mas
não pelas razões históricas.